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Quando o choque vira sintoma: o papel dos pais na banalização do extremismo

  • Foto do escritor: Karina Pinto
    Karina Pinto
  • há 24 horas
  • 2 min de leitura

Imagem: Montagem e reprodução Redes sociais
Imagem: Montagem e reprodução Redes sociais

O episódio envolvendo um adolescente que utilizou símbolos associados ao nazismo em um evento de formatura reacendeu um debate desconfortável — e necessário — sobre limites, responsabilidade e o papel da família na formação ética dos jovens. Em meio à rápida tentativa de encerrar o caso com pedidos de desculpas e a narrativa do “não sabia o que estava fazendo”, a psicologia lança uma luz incômoda: a banalização do extremismo não nasce do acaso.


Para a psicóloga infantil Sandra Vieira, docente do curso de Psicologia da Faculdade Serra Dourada, em Altamira (PA), a ausência de limites claros no ambiente familiar não se resume à falta de regras, mas à fragilidade na transmissão de valores. “Limites dizem respeito à ética, à empatia e à responsabilidade simbólica”, afirma. Quando esses referenciais não são trabalhados desde a infância, símbolos historicamente ligados à violência extrema passam a ser vistos como objetos estéticos, provocativos ou instrumentos de transgressão — esvaziados de seu significado real.


A adolescência é, por definição, um período de experimentação e confronto. Mas isso não equivale à inocência. A escolha por símbolos carregados de significado histórico, como os associados ao nazismo, raramente é neutra. Segundo Sandra, trata-se de um fenômeno multifatorial: pode envolver busca por identidade, desejo de chocar, necessidade de afirmação ou reprodução de discursos assimilados no ambiente social. “Nem toda escolha indica adesão ideológica plena, mas toda escolha simbólica comunica algo”, destaca. E o que se comunica, nesse caso, é um flerte perigoso com a violência, o poder e a intolerância.


O argumento de que o adolescente “não sabia o que estava fazendo” também não se sustenta à luz do desenvolvimento psicológico. Jovens dessa faixa etária já possuem capacidade cognitiva para compreender significados sociais e morais básicos, além de amplo acesso à informação. O que ocorre, muitas vezes, não é ignorância, mas minimização da gravidade, dificuldade de antecipar consequências ou uso do símbolo como “brincadeira”. Isso aponta para imaturidade emocional — não para desconhecimento — e tampouco elimina a responsabilidade.


Nesse contexto, o ambiente familiar surge como fator central. Famílias que evitam conversas difíceis, relativizam comportamentos violentos, não monitoram conteúdos consumidos ou naturalizam discursos extremistas acabam, mesmo sem intenção, criando terreno fértil para esse tipo de manifestação. A escola, os grupos de pares e as redes sociais influenciam, mas não substituem o papel formador dos adultos responsáveis.


A ideia de que adolescentes constroem sozinhos visões extremistas também é um mito confortável. “Eles não criam ideologias complexas do zero”, explica a psicóloga. O que fazem é reproduzir símbolos e discursos que circulam no universo adulto — na família, na internet, na mídia e em lideranças de opinião — muitas vezes sem maturidade crítica para compreender sua dimensão histórica e humana.


Responsabilizar os pais não significa criminalizar a família, mas reconhecer que educação ética não pode ser terceirizada. Quando símbolos de ódio passam a ser tratados como provocação inofensiva, o problema não está apenas no jovem que os veste, mas nos adultos que falharam em ensinar o peso daquilo que ele carrega no corpo — e na história.

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