O Brasil precisa de terapia. Ou de uma Avaiana de Pau?
Vivemos uma época em que não se permite rir como ríamos antes.

Quem lembra das “avaianas de paaaaau”? Não eram confortáveis, mas ensinavam os filhos a ter boas maneiras. Quando surgiram, ainda como vídeo tosco numa internet ainda “primitiva”, não eram pedagogia, não eram manifesto. Nem meme — a palavra como conhecemos hoje — existia. Eram um exagero caricato de um país caricato.
Mostravam o quanto gostávamos de resolver tudo no impacto, no ruído. E seguíamos a vida.
Não se trata de métodos educativos ou de um sentimento nostálgico. Tudo virou guerra, polarização. Uma incapacidade coletiva de sustentar o diálogo. A polarização política não nos permite mais pensar; apenas nos posicionar. Não se interpreta — reage-se.
Saudades daquelas “avaianas de paaaaau”. A chinelada simbólica que fazia escárnio de várias situações, como “é minha culpa se o Corinthians perder”. Aquele simbolismo de que nem tudo precisa virar cruzada moral ou bandeira partidária.
Aí vêm as Havaianas (com H) e lançam um comercial em que se diz que não devemos entrar em 2026 com o pé direito. A marca, que sempre foi sinônimo de informalidade e usada por milhares de brasileiros, independentemente da classe, vira alvo de críticas e elogios.
Uma evidência de que o que antes seria lido como irônico passa a ser ofensivo, no entendimento de alguns, revelando um país incapaz de sustentar a mensagem sem transformá-la numa disputa — ainda mais no ano que vem, eleitoral. O Brasil de hoje fala alto demais e escuta de menos.
Boicote? Falta argumento contrário. “Essa marca não me representa” fala mais de quem afirma do que sobre o que é afirmado.
E, no meio dessa discussão, Fernanda Torres ainda está aqui. Plagiando o filme que protagoniza, ela permanece enquanto o país se fragmenta ainda mais, quando, ao menos eu achava, parecia estar se unificando. Não se sabe se decidimos rir, cancelar ou fingir que não é conosco.
Daí veio a lembrança daqueles chinelos, de madeira e prego — não para bater, mas para parar. Para lembrar que “calçar” bom senso é educação, civilidade e evolução.
Ela ainda está aqui. As Havaianas irão permanecer também. E o Brasil, agora, descalço, discutindo muito, entendendo pouco. Chamam de consciência a perda de um filtro. Uma vigilância ou militância que se confunde com virtude, barulho com argumento (quais?).
O bom senso foi expulso do debate. Sem apanhar das “avaianas de paaaaau”.
Por Ede Leite



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