Por que os homens temem o voto feminino?
- Karina Pinto
- 30 de jun.
- 3 min de leitura

Poucos direitos parecem hoje tão consolidados quanto o voto feminino. Afinal, mais de um século se passou desde que sufragistas enfrentaram prisões, humilhações e violência para conquistar aquilo que hoje parece elementar: o direito de participar da vida política em igualdade de condições.
Mas a história tem o hábito de reaparecer e nos lembrar que direitos podem ser suprimidos quando os donos do poder se sentem intimidados, e incomodados com o volume expressivo de eleitoras, esses movimentos extremistas partem para o ataque.
As declarações recentes do influenciador e aliado do bolsonarismo Paulo Figueiredo, ao afirmar que mulheres "votam mal" e sugerir que eleitoras, especialmente as solteiras, seriam responsáveis por escolhas políticas equivocadas, não representam apenas uma ofensa ou uma provocação de internet. Elas resgatam um dos pilares do antigo movimento antissufragista: a ideia de que a mulher não possui autonomia política suficiente para decidir os rumos de uma democracia.
De novo, o argumento não tem nada. No início do século XX, organizações contrárias ao sufrágio feminino no Reino Unido e nos Estados Unidos defendiam exatamente isso. Diziam que mulheres eram emocionais demais para votar, que o marido já representava a família nas urnas e que a política corromperia a vocação feminina para o lar. Algumas dessas organizações eram lideradas pelas próprias mulheres, que se diziam convencidas de que a missão feminina era preservar a ordem social baseada na autoridade e no poder masculino.
É justamente aí que reside um dos aspectos mais sofisticados desse tipo de movimento: ele frequentemente utiliza mulheres como suas principais porta-vozes. Convencidas de que são diferentes das mulheres que o movimento ataca, elas atacam direitos femininos, criticam o feminismo, e defendem com base na fé o lugar “sagrado” das mulheres na sociedade.
A manobra nada mais é do que uma estratégia histórica. Quando mulheres defendem publicamente que seu verdadeiro papel é servir à família, submeter-se à autoridade do marido ou abandonar espaços de poder, o discurso ganha uma aparência de legitimidade difícil de alcançar quando enunciado exclusivamente por homens.
Essa dinâmica tem sido observada em diferentes países com o fortalecimento de setores ultraconservadores ligados ao nacionalismo religioso. Nos Estados Unidos, grupos que defendem o chamado *household voting*, um sistema em que apenas um voto representaria toda a família, normalmente exercido pelo chefe masculino do lar, voltaram a circular em ambientes políticos e religiosos próximos à extrema direita. Embora permaneçam minoritários, esses grupos fazem barulho, e revelam que o debate sobre a autonomia política das mulheres não pertence apenas aos livros de história.
Parte importante do crescimento da direita conservadora ocorreu justamente graças à mobilização feminina em igrejas, movimentos religiosos e organizações partidárias voltadas às mulheres. Lideranças femininas ocupam hoje um espaço estratégico na comunicação política desse campo. Entretanto, em muitos casos, essa participação vem acompanhada de uma defesa explícita de modelos familiares rigidamente hierarquizados, nos quais o homem ocupa naturalmente a posição de liderança e a mulher é incentivada a exercer prioritariamente funções domésticas, maternas e religiosas.
Não há problema algum em uma mulher escolher dedicar sua vida à família. O problema surge quando essa escolha individual passa a ser apresentada como destino obrigatório para todas as demais e, pior ainda, quando se transforma em justificativa para diminuir sua autonomia política.
É impossível não lembrar de *O Conto da Aia*, romance de Margaret Atwood que se tornou símbolo da crítica aos regimes teocráticos e autoritários. A obra não retrata apenas um governo que controla o corpo feminino. Ela mostra como sistemas de opressão sobrevivem justamente porque conseguem recrutar mulheres para vigiar, disciplinar e convencer outras mulheres de que a submissão é uma virtude.
A ficção nunca pretendeu ser uma previsão literal da realidade. Mas continua funcionando como metáfora poderosa para lembrar que a erosão dos direitos costuma começar pelo discurso antes de alcançar as leis.
Nenhum movimento relevante no Brasil ou nos Estados Unidos propõe oficialmente revogar o voto feminino. Ainda assim, quando figuras influentes passam a naturalizar a ideia de que mulheres votam pior, que deveriam seguir a orientação política dos maridos ou que sua atuação pública é um problema, cria-se um ambiente em que a igualdade deixa de ser um princípio democrático para se tornar uma concessão sujeita a questionamentos.
Democracias raramente perdem direitos em um único golpe. Normalmente, eles são corroídos pouco a pouco, por meio da normalização de discursos que transformam cidadãos em eleitores de segunda categoria.
O voto feminino não foi uma dádiva concedida pelos homens. Foi uma conquista arrancada da resistência de mulheres que enfrentaram exatamente os mesmos argumentos que hoje reaparecem travestidos de estatística, tradição ou moral religiosa.
Quando alguém afirma que mulheres votam mal, a questão não é apenas quem disse. A pergunta mais importante é outra: qual sociedade se pretende construir quando se começa a desconfiar da capacidade política de metade da população? E é bom reforçar, as mulheres no Brasil são a maioria do eleitorado.



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