Petróleo, Trump e Venezuela: o "acordo" que redesenha o tabuleiro energético mundial
- Karina Pinto
- há 4 dias
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Há momentos em que uma notícia sobre petróleo deixa de ser apenas uma notícia sobre petróleo. O "acordo" anunciado pelo governo de Donald Trump para ampliar o acesso dos Estados Unidos às reservas venezuelanas é um desses casos.
Apresentado pelo presidente americano como o “maior acordo petrolífero da história”, o projeto envolve 17 campos com potencial estimado em 65 bilhões de barris, cerca de um quinto das reservas comprovadas da Venezuela. Pelos termos divulgados, a empresa North American Blue Energy Partners (Nabep) ficará responsável pela exploração dos campos, enquanto os Estados Unidos terão participação de 35% na estrutura criada para administrar os ativos, além de acesso a 20% da produção a preço de custo e preferência para comprar o restante.
Os números são gigantescos. Mas talvez o mais importante esteja justamente nos detalhes, e em tudo o que não aparece imediatamente nesse anúncio histórico.
O acordo não representa apenas uma aposta na recuperação da indústria petrolífera venezuelana, afinal, não existe almoço grátis! Esse anúncio revela uma mudança de estratégia de Washington em um momento em que a segurança energética voltou a ocupar o centro da geopolítica mundial.
A Venezuela tem as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, mas produz hoje cerca de 1,2 milhão de barris por dia, muito abaixo dos mais de 3 milhões de barris diários registrados há cerca de duas décadas. Falta de investimentos, deterioração da infraestrutura, problemas de gestão e sanções aplicadas pelos EUA, reduziram a capacidade de produção do país.
É justamente aí que está a oportunidade enxergada por Trump: transformar uma gigantesca reserva de petróleo subaproveitada em uma fonte de oferta sob maior influência dos EUA e das empresas norteamericanas.
A aproximação entre Washington e Caracas não pode ser analisada apenas pela relação entre Estados Unidos e Venezuela. Trump não acordouum dia e pensou que a Venezuela seria um bom lugar para investir. A história é bem mais complexa e envolve interesses políticos, econômicos e geográficos.
Durante anos, China e Rússia ampliaram sua presença econômica e energética no país. Parte dos campos envolvidos no novo acordo era anteriormente associada a empresas chinesas e russas. Para Washington, portanto, ampliar sua participação na indústria venezuelana também significa reduzir o espaço ocupado por seus principais rivais geopolíticos.
A reação de Pequim deixa isso evidente. O governo chinês afirmou que seus direitos e interesses legítimos na Venezuela precisam ser preservados.
O petróleo venezuelano é uma peça de um jogo maior pela influência sobre os recursos energéticos e sobre os países que os controlam. A lógica é simples: quem participa da produção, controla investimentos, influencia a infraestrutura e possui preferência de compra e também aumenta sua capacidade de influenciar o destino daquela commodity.
Nesse sentido, a Venezuela passa a ser novamente estratégica para Washington não apenas por aquilo que possui no subsolo, mas por sua localização e por sua capacidade potencial de fornecer petróleo para um mercado que busca reduzir vulnerabilidades.
O problema é que petróleo não sai do subsolo na velocidade de uma assinatura, e é aqui que o entusiasmo político de Trump encontra a realidade econômica.
Segundo a reportagem da DW Brasil, especialistas alertam que a recuperação da indústria petrolífera venezuelana será longa e cara. O país precisa recuperar instalações, ampliar investimentos, reconstruir infraestrutura e oferecer segurança jurídica suficiente para convencer grandes empresas internacionais a colocar bilhões de dólares em projetos de longo prazo.
A especialista Amy Myers Jaffe, da Universidade de Nova York, foi direta ao avaliar o impacto sobre o consumidor americano: a recuperação venezuelana pode ser útil no longo prazo, mas não deve alterar imediatamente o preço da gasolina nos postos.
Mas, quem costuma prestar atenção nas aulas de geopolítica, e no noticiário, já deve ter percebido que no tabuleiro da economia global, nem sempre o que se vê é exatamente o que está acontecendo. É aqui que entra o Estreito de Ormuz e a guerra no oriente médio.
O Estreito de Ormuz é uma das principais rotas energéticas do planeta. Uma parcela enorme do petróleo produzido no Golfo Pérsico passa por aquela estreita faixa marítima antes de chegar aos mercados internacionais.
Quando Estados Unidos e Irã entram em confronto e cresce o risco de interrupções no transporte, o mercado reage imediatamente. E sempre que algo assim acontece, o raciocínio dos investidores é relativamente simples: se milhões de barris podem deixar de chegar aos consumidores, a oferta global fica mais apertada e o preço sobe.
O conflito ganhou corpo, o petróleo passou a incorporar no preço um prêmio de risco geopolítico. Não importa apenas quanto petróleo existe no mundo. Importa onde ele está, por onde precisa passar e se essas rotas estão seguras.
É por isso que Ormuz e Venezuela, embora estejam em lados opostos do mapa, começam a fazer parte da mesma conversa. Nesse ponto, seria importante se perguntar: Venezuela é uma alternativa a Ormuz? De acordo com os especialistas ouvidos pela DW Brasil, não no curto prazo.
A Venezuela pode aumentar significativamente sua produção nos próximos anos, mas não tem capacidade de substituir rapidamente milhões de barris que eventualmente deixem de circular pelo Estreito de Ormuz, caso o clime esquente e a guerra saia do controle.
O que a Venezuela pode oferecer é algo diferente: rota alternativa. Quanto maior a participação de produtores localizados fora de zonas de conflito, menor, em tese, a vulnerabilidade do mercado a um único ponto de estrangulamento. Mesmo que essa alternativa não seja palpável a curto prazo, a crise nlentre EUA e Irã ajudaram a dar corpo ao tal acordo assinado com a Venezuela.
Mas e a China, como a potência asiatiifoca nessa história? Pequim observa esse movimento com atenção porque o petróleo venezuelano também faz parte de sua estratégia energética.
Se Washington ampliar sua influência sobre a produção venezuelana, uma parcela do petróleo que poderia alimentar refinarias chinesas passa a estar sob maior influência americana.
Nesse tabuleiro, quando a China perde acesso a determinados barris venezuelanos ou iranianos, o país pode aumentar sua procura por petróleo russo. Ou seja: uma tentativa americana de reduzir a influência chinesa e russa sobre a Venezuela pode acabar deslocando parte da demanda chinesa para a Rússia.
A Rússia continua sendo um dos maiores produtores mundiais e possui uma relação energética estratégica com a China. Se o petróleo venezuelano e iraniano se tornam mais difíceis de acessar, Moscou pode encontrar espaço adicional para seus barris.
Em guerra com a Ucrânia, o país também enfrenta limitações decorrentes das sanções, da necessidade de encontrar compradores e dos descontos aplicados ao seu petróleo em determinados mercados.
Mas, em um cenário de oferta restrita, qualquer grande produtor capaz de colocar barris adicionais no mercado ganha importância. Nesse caso, a curtíssimo prazo, diferentemente da alternativa planejada por Trump, com a Venezuela.



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