Petróleo, tarifas e guerra: a nova disputa pelo poder global
- Karina Pinto
- 18 de ago.
- 4 min de leitura

Enquanto EUA e China travam uma guerra comercial, Washington amplia sua influência sobre o petróleo venezuelano e enfrenta um conflito prolongado com o Irã. O resultado é uma disputa que vai muito além do barril de petróleo
De um lado, Estados Unidos e China continuam disputando tarifas, mercados, tecnologia, minerais estratégicos e cadeias de produção. De outro, Trump amplia seu controle sobre o petróleo venezuelano e mantém uma guerra prolongada com o Irã, enquanto o Estreito de Ormuz permanece no centro da crise energética mundial.
Nesta terça-feira (18), o barril do Brent fechou a US$ 91,02, enquanto o WTI chegou a US$ 84,94. A alta ocorre em meio ao impasse entre Estados Unidos e Irã e à redução drástica do tráfego pelo Estreito de Ormuz, uma das principais rotas do comércio mundial de petróleo.
Desde a captura de Nicolás Maduro, em janeiro, os Estados Unidos passaram a controlar as vendas e as receitas do petróleo venezuelano. A justificativa apresentada pelo governo Trump é reconstruir a indústria petrolífera do país e garantir que os recursos sejam administrados de maneira compatível com os interesses venezuelanos e americanos.
Uma reportagem do New York Times revelou o que o mundo já sabia, Trump queria algo mais do que simplesmente "livrar" os venezuelanos do regime Maduro. Em julho, a Venezuela exportou cerca de 1,16 milhão de barris por dia, e os embarques para os Estados Unidos chegaram a aproximadamente 786 mil barris diários, o maior volume desde 2019. A reportagem destacou ainda, que aproximadamente metade da produção venezuelana já está sendo destinada ao mercado dos Estados Unidos. O próprio presidente fala abertamente sobre o assunto.
Isso não significa que Washington tenha se tornado imune à alta do petróleo. Os Estados Unidos continuam sendo um dos maiores consumidores mundiais e também sofrem quando gasolina, diesel, transporte e produtos industriais ficam mais caros.
Mas existe uma diferença importante entre sofrer os efeitos de uma crise energética e ter maior capacidade de controlar uma parte da oferta. É essa diferença que transforma o petróleo venezuelano em um ativo extremamente importante.
A disputa comercial entre Washington e Pequim ganha um elemento ainda mais complexo, que pode finalmente mostrar o que Trump mais teme. A guerra tarifária já não se limita à compra e venda de mercadorias. Ela envolve tecnologia, minerais críticos, cadeias produtivas, indústria automotiva, inteligência artificial e energia.
Nesta terça-feira, Estados Unidos e Irã continuaram apresentando versões conflitantes sobre a situação do estreito. Donald Trump afirma que a passagem está aberta e sob controle americano; Teerã sustenta que permanece fechado e condiciona sua reabertura a compromissos de Washington. O tráfego marítimo, porém, continua muito abaixo do normal.
O mercado já começa a incorporar a possibilidade de que a interrupção não seja passageira. O petróleo voltou a subir justamente porque os investidores passaram a considerar mais provável uma crise prolongada em torno de Ormuz.
Mas é aqui que mora o perigo: uma crise prolongada é ruim para os Estados Unidos, não necessariamente ruim em todos os aspectos, mas, com um dos mercados consumidores mais exigentes do mundo, uma inflação interna é algo temido por qualquer político que sonhe com a eleição ou popularidade.
Não se pode negar que empresas americanas produtoras de petróleo podem ganhar com preços internacionais elevados. Refinarias podem se beneficiar até certo ponto. O petróleo venezuelano sob influência americana se torna ainda mais valioso. E países fortemente dependentes de importações de energia, como a China, ficam mais expostos.
No entanto, seria precipitado, e jornalisticamente irresponsável, concluir que Washington deseja a manutenção da guerra apenas porque alguns de seus interesses estratégicos podem ser favorecidos pelo conflito. O petróleo caro alimenta a inflação, pressiona os juros, encarece o transporte e reduz o poder de compra das famílias. Uma guerra prolongada exige recursos militares, aumenta os riscos de ataques contra bases e aliados americanos e pode arrastar Washington para um conflito muito maior do que o inicialmente planejado.
O próprio mercado financeiro já demonstra preocupação com esse efeito. A escalada no Oriente Médio vem aumentando o temor de inflação persistente. Portanto, a questão não é saber se os Estados Unidos "ganham" com a guerra. A questão é saber se, diante de uma crise que produz custos para todos, Washington está em uma posição relativamente mais favorável do que seus principais rivais, ou atirando contra o próprio pé.
Venezuela, Irã e China aparecem em pontos diferentes dessa história. A Venezuela possui enormes reservas de petróleo e agora tem sua produção e suas exportações profundamente influenciadas por Washington, para não dizer, controladas.
O Irã controla, ou reivindica controlar, uma das principais passagens marítimas do planeta e está em guerra com os Estados Unidos. A China é uma grande compradora de energia e, ao mesmo tempo, o principal adversário econômico de Washington.
Nesse cenário, controlar fontes de petróleo, rotas de transporte e mecanismos de comércio passa a ter quase o mesmo peso que controlar fábricas e tecnologias.
Talvez seja essa a transformação mais importante da atual crise. A guerra comercial deixou de ser apenas uma disputa por tarifas. A guerra no Oriente Médio deixou de ser apenas uma disputa territorial ou nuclear. E o petróleo deixou de ser apenas uma mercadoria.
Se o petróleo continuar acima de US$ 90, produtores ganham, mas consumidores perdem. Países exportadores acumulam receita, enquanto importadores enfrentam inflação. Empresas de energia podem ampliar lucros, enquanto companhias aéreas, transportadoras e indústrias sofrem.
E, quanto mais tempo Ormuz permanecer comprometido, maior será o incentivo para que países procurem novas rotas, estoques, fornecedores e alternativas energéticas.
A China já demonstra capacidade de adaptação. Empresas chinesas passaram a recolher petróleo fora do Golfo, enquanto outros produtores procuram alternativas logísticas para manter seus fluxos de exportação. É uma corrida silenciosa para descobrir quem consegue ficar menos dependente das rotas e dos recursos que Washington consegue influenciar.
Se a guerra com o Irã continuar, se Ormuz permanecer parcialmente fechado e se Washington mantiver influência sobre o petróleo venezuelano, os Estados Unidos estarão diante de uma situação paradoxal: podem sofrer com o choque energético e, simultaneamente, ampliar seu poder relativo sobre o sistema energético mundial.
É justamente essa contradição que torna o momento tão perigoso. Porque, em uma economia globalizada, ninguém controla completamente as consequências de uma crise energética. Sob pressão, países buscarão alternativas, o que poderia ampliar e fortalecer blocos como o Brics.
O país que fecha uma rota pode provocar inflação do outro lado do mundo. O país que controla uma reserva pode descobrir novos compradores. A tarifa criada para proteger uma indústria pode encarecer seus próprios insumos. E uma guerra iniciada para produzir pressão pode acabar fortalecendo o adversário que pretendia enfraquecer.



Comentários