Enquanto o planeta queima, as urnas parecem olhar para outro lado
- Karina Pinto
- 30 de jul.
- 3 min de leitura
Há algo profundamente contraditório acontecendo em 2026

Enquanto incêndios gigantescos transformam florestas europeias em cinzas, tufões deslocam milhões de pessoas na Ásia e tornados voltam a atingir regiões brasileiras pouco acostumadas a esse tipo de fenômeno, o debate político internacional parece caminhar na direção oposta. O clima se tornou protagonista da realidade, mas continua figurante nas campanhas eleitorais.
Os últimos dias oferecem uma fotografia perturbadora desse paradoxo. França e Espanha enfrentam incêndios históricos, alimentados por uma combinação explosiva de calor extremo, seca e ventos intensos. Bombeiros europeus passaram a conviver com um fenômeno que até pouco tempo parecia restrito aos livros de meteorologia: tempestades de fogo produzidas pelos próprios incêndios. Na China, milhões deixaram suas casas diante da chegada de um poderoso tufão. No Brasil, tornados, vendavais, enchentes e estiagens voltaram a dividir espaço no noticiário como se fossem acontecimentos rotineiros.
A ciência não afirma que cada desastre seja causado exclusivamente pelas mudanças climáticas. Mas o consenso é robusto ao demonstrar que um planeta mais quente favorece eventos extremos mais frequentes, mais intensos e mais destrutivos.
Paradoxalmente, quanto mais evidente se torna essa realidade, menor parece ser sua capacidade de influenciar escolhas políticas.
Nos Estados Unidos, o retorno de Donald Trump consolidou um governo que voltou a estimular combustíveis fósseis e reduziu políticas climáticas. Na Europa, partidos nacionalistas e de extrema direita ampliam espaço eleitoral defendendo o enfraquecimento de metas ambientais, contestando regulações verdes ou tratando a agenda climática como obstáculo ao crescimento econômico. Na Espanha, por exemplo, a proposta de um pacto nacional para enfrentar a emergência climática esbarra justamente na resistência de partidos conservadores e da extrema direita.
Em poucos meses, o eleitor brasileiro escolherá presidente, governadores, parlamentares e deputados estaduais. Será uma eleição realizada depois da COP30, sediada em Belém, e em meio a uma sucessão de eventos climáticos que já afetam diretamente o cotidiano da população, seja pelas perdas agrícolas, pelos alagamentos urbanos ou pelos impactos sobre a saúde pública.
Ainda assim, o tema ambiental corre o risco de ser engolido por debates mais imediatistas. É compreensível que inflação, segurança pública, e renda ocupem lugar central nas preocupações do eleitor. O problema é imaginar que esses assuntos possam ser separados da crise climática.
A inflação dos alimentos depende do clima. A geração de energia depende do clima. A disponibilidade de água depende do clima. A infraestrutura urbana depende do clima. A saúde pública depende do clima.
A crise ambiental deixou de ser uma pauta exclusiva de ambientalistas para se tornar um fator econômico, social e fiscal. Talvez a grande vitória política do negacionismo climático não tenha sido convencer a população de que o aquecimento global não existe. Foi convencer milhões de pessoas de que ele pode esperar.
As urnas refletem prioridades legítimas da sociedade. Mas elas também revelam aquilo que escolhemos ignorar. Se continuarmos tratando a emergência climática como um tema secundário, corremos o risco de descobrir, tarde demais, que a natureza não respeita calendários eleitorais.
Os incêndios não aguardam a posse de um novo governo. Os tufões não consultam pesquisas de intenção de voto. As enchentes não distinguem ideologias, e talvez essa seja a maior ironia do nosso tempo: nunca houve tantas evidências de que a crise climática moldará o futuro das nações, e nunca pareceu tão difícil transformá-la no centro do debate político.
Enquanto discutimos quem governará pelos próximos quatro anos, o clima continua votando todos os dias. E, ao contrário dos eleitores, ele nunca se abstém.



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