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No Brasil do século XXI, violência contra a mulher se torna rentável na Dark Web

  • Foto do escritor: Karina Pinto
    Karina Pinto
  • há 2 horas
  • 2 min de leitura
Imagem: reprodução PF
Imagem: reprodução PF

A Polícia Federal deflagrou nesta quarta-feira (11) uma operação nacional para reprimir crimes sexuais que exploram e disseminam vídeos de abuso contra mulheres enquanto estavam dopadas, identificando redes organizadas que atuam dentro e fora do país.


A investigação, que cumpriu mandados em cinco estados brasileiros, aponta para uma realidade alarmante: no século XXI, o deleite com a violência contra a mulher não se limita a ambientes privados — ele invade telas, algoritmos e conteúdos compartilhados na internet.


Os números mais recentes sobre violência de gênero no Brasil revelam que a cultura misógina está entranhada em estruturas que vão do ambiente doméstico ao espaço digital, na medida em que relacionamentos abusivos, agressões físicas e mortes motivadas pelo gênero seguem em níveis cronicamente altos.


De acordo com dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero, o Brasil registrou cerca de 1.470 feminicídios em 2025 — uma média de quatro mulheres mortas por dia por motivos ligados ao gênero. Esses são os casos em que a mulher é assassinada justamente por ser mulher, frequentemente no ambiente doméstico e pelas mãos de companheiros ou ex-parceiros.


O mesmo levantamento aponta ainda que, na primeira metade de 2025, foram contabilizados quase 34 mil estupros contra mulheres — uma média de cerca de 187 casos por dia — em um país que tem percentuais cronicamente elevados de violência sexual, o alarme está ativado há anos.


Nada é tão ruim que não possa piorar, e quando o assunto é violência, a escalada, apesar de mórbido, é apenas um detalhe. A operação da Polícia Federal, que contou com cooperação internacional, representa um esforço estatal para enfrentar formas contemporâneas de abuso sexual que ganham terreno na internet, muitas vezes alimentadas por grupos misóginos e consumidores de conteúdo que transformam a violência contra mulheres em entretenimento ou fetiche criminoso.


O uso de sedativos em vítimas, a troca de vídeos e a normalização do sofrimento feminino, extrapolam os lares, bares, ruas, e se virtualizam, reforçando padrões culturais que tratam o corpo e a dignidade das mulheres como objetos descartáveis. Essa dinâmica funciona como um prolongamento digital das mesmas formas de violência intrafamiliar que os dados estatísticos denunciam ano após ano.


Especialistas em violência de gênero ressaltam que a internet, por si só, não cria o problema, mas reflete e amplifica desigualdades já existentes na sociedade brasileira. A tolerância social a formas de agressão, a persistência de crenças patriarcais e a dificuldade de muitos homens em reconhecer a autonomia feminina convergem para um cenário em que a violência, em todas as suas formas, permanece alta.


A atuação da Polícia Federal representa um esforço relevante para desarticular redes criminosas internacionais e responsabilizar quem lucra com a violência sexual, especialmente nas formas de disseminação de conteúdo criminoso. No entanto, especialistas ressaltam que medidas repressivas, por mais necessárias que sejam, precisam estar acompanhadas de políticas públicas efetivas de prevenção, educação e proteção às vítimas.


Sem uma mudança cultural profunda, que desconstrua as normas sociais que toleram a violência e que eduque meninos e homens sobre respeito e igualdade de gênero, os números continuarão altos — seja na estatística de feminicídios, na subnotificação de estupros ou nas sombras de crimes que ainda não vêm à tona.

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