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Quando o “não” vira motivo de violência: a perigosa normalização da misoginia nas redes e a trend do momento

  • Foto do escritor: Karina Pinto
    Karina Pinto
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura
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No Dia Internacional da Mulher, uma nova “trend” nas redes sociais escancara algo que o Brasil ainda se recusa a enfrentar com a seriedade necessária: a naturalização da violência masculina contra mulheres.


Em vídeos que viralizam principalmente no Instagram e no TikTok, homens aparecem socando sacos de pancada ou simulando treinos de luta acompanhados de frases como: "treinando caso ela diga não" — uma referência a possíveis pedidos de namoro ou casamento. A mensagem implícita é simples e brutal: se uma mulher recusar, a resposta pode ser agressão.


Não se trata de humor. Não é meme. É uma forma explícita de incitação à violência contra mulheres.


A deputada federal Duda Salabert denunciou publicamente o caso e afirmou ter acionado o Ministério Público para investigar os perfis envolvidos. Para a parlamentar, o conteúdo revela algo alarmante: “na semana que marca o Dia Internacional das Mulheres, o que viraliza são homens incitando ódio”.


A crítica não é exagerada. Pelo contrário. Segundo a deputada, o Brasil enfrenta um cenário dramático de violência de gênero — com recordes de feminicídio e números alarmantes de estupro — e, mesmo assim, parte da internet transforma o desprezo e a violência contra mulheres em entretenimento.


A lógica dessas trends segue um roteiro conhecido: primeiro vem a “brincadeira”. Depois, a normalização. Por fim, a banalização da violência.


Quando homens gravam vídeos simulando agressões como resposta a uma rejeição, eles reforçam um imaginário profundamente enraizado na cultura machista: o de que o “não” de uma mulher é uma provocação, não um direito.


A recusa feminina, nesse contexto, deixa de ser uma decisão legítima sobre o próprio corpo e passa a ser tratada como humilhação masculina — algo que precisaria ser punido.


Essa lógica não surge do nada. Ela dialoga com uma cultura de masculinidade tóxica que associa virilidade ao controle e à dominação. Nas redes, onde o engajamento premia conteúdos extremos, esse tipo de discurso encontra terreno fértil.


A história recente mostra que a misoginia online não é apenas discurso. Ela pode se transformar em violência concreta.


Estudos sobre violência de gênero na internet apontam que ambientes digitais frequentemente funcionam como espaços de radicalização e amplificação de discursos de ódio, incentivando ataques e ameaças contra mulheres.


Quando milhares de pessoas compartilham vídeos que sugerem agressão como reação a um “não”, o que se constrói é uma pedagogia da violência. É a mensagem de que mulheres devem pensar duas vezes antes de recusar.


Outro ponto levantado por Duda Salabert é a facilidade com que autores desse tipo de conteúdo se escondem atrás de duas justificativas recorrentes: “liberdade de expressão” ou “era só uma brincadeira”.


Mas liberdade de expressão não pode ser confundida com liberdade para incitar violência.


E transformar ameaças em piada não diminui a gravidade do problema — apenas revela o quanto a misoginia ainda é socialmente tolerada.


O que essas trends realmente revelam, é que talvez o aspecto mais preocupante dessa onda de vídeos não seja apenas o conteúdo, mas a naturalidade com que ele circula.


Porque, no fundo, a mensagem que ecoa nesses posts é antiga: a ideia de que mulheres devem aceitar — ou temer — a reação masculina diante da rejeição.


Em um país onde tantas mulheres já foram agredidas, perseguidas ou assassinadas por simplesmente dizer “não”, brincar com essa possibilidade não é apenas irresponsável.


É perigoso.


E, sobretudo, é um retrato incômodo de uma sociedade que ainda precisa aprender algo básico: o “não” de uma mulher não é provocação — é um direito.

 
 
 

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