top of page

Curso para homens, polêmica e violência contra a mulher

  • Foto do escritor: Karina Pinto
    Karina Pinto
  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

A recente repercussão envolvendo o ator Juliano Cazarré e a reação pública de sua esposa às críticas a um projeto ligado à masculinidade escancara uma prática questionável: por que, em pleno 2026, ainda tratamos o comportamento masculino como algo que precisa ser “ensinado” e não responsabilizado?


O debate não surge no vazio. No Brasil, quatro mulheres são assassinadas por dia. A maioria das mortes ocorre dentro de casa, e em grande parte dos casos o agressor é alguém íntimo, seja o parceiro ou ex-companheiro. Esses dados não são apenas estatísticas frias, apesar de serem amplamente questionados por perfis misóginos nas redes sociais. Os números revelam uma estrutura social que naturaliza o poder masculino e, ao mesmo tempo, relativiza seus excessos.


Diante desse cenário, a ideia de “ensinar homens a serem homens” ganha força como estratégia. Mas é preciso cuidado: há uma linha tênue entre educar e desculpabilizar.

Educar homens no sentido de promover inteligência emocional, respeito e revisão de padrões violentos de masculinidade, é urgente. Trata-se de uma medida preventiva, capaz de romper ciclos que começam na infância e se manifestam na vida adulta. O problema começa quando essa proposta escorrega para um terreno mais confortável: o da indulgência.


No fundo, o que está em jogo é um velho padrão brasileiro: a tolerância com o atraso emocional masculino.


Meninos crescem ouvindo que “homem não chora”, que precisam ser fortes, dominantes, inabaláveis. Ao mesmo tempo, são frequentemente poupados de desenvolver responsabilidade afetiva, empatia e autocontrole. Quando adultos, muitos reproduzem comportamentos abusivos e a sociedade, em vez de cobrar, compreende, tolera, e frases como: “Ele não sabe lidar”, “ele não aprendeu”, “ele é assim mesmo”, surgem com naturalidade.


Essa lógica cria um paradoxo perverso: homens ocupam posições de poder, mas são tratados como incapazes de responder plenamente por seus atos.


É nesse ponto que a narrativa do “ensinar” se torna perigosa. Quando aplicada sem crítica, ela infantiliza o homem adulto e desloca o foco da responsabilidade individual para uma suposta falha coletiva abstrata. Em outras palavras: transforma violência em déficit educacional e não em escolha, ação e crime.


Quando a maioria dos feminicídios acontece dentro de casa, falar em “aprendizado” sem falar em responsabilização soa, no mínimo, insuficiente e irresponsável. Em alguns casos, chega a funcionar como álibi cultural. Afinal, se ele ainda está “aprendendo”, até que ponto pode ser culpado?


Isso não significa rejeitar a educação como ferramenta de transformação. Pelo contrário. Significa reconhecer que ela não substitui a responsabilização. Uma sociedade que educa, mas não cobra, apenas adia o problema.


O episódio envolvendo Juliano Cazarré toca justamente nesse nervo exposto. Não se trata apenas de divergência de opinião, mas de um embate sobre qual modelo de masculinidade queremos sustentar, e principalmente, quais comportamentos estamos dispostos a continuar tolerando.


A pergunta que fica é desconfortável, mas necessária: até quando vamos tratar homens como obras inacabadas, enquanto mulheres pagam o preço dessa demora?


Ensinar é parte da resposta. Mas parar de desculpar talvez seja o começo real da mudança.

Comentários


bottom of page