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Misoginia como crime: o freio necessário a uma indústria de ódio que cresceu sem controle

  • Foto do escritor: Karina Pinto
    Karina Pinto
  • 24 de mar.
  • 2 min de leitura
Imagem de Freepik
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A decisão do Senado de equiparar a misoginia ao crime de racismo não é apenas um avanço legislativo, é sobretudo, uma resposta tardia, mas necessária, a um fenômeno que se consolidou diante da omissão institucional e do oportunismo digital: a profissionalização e a espetacularização do ódio contra mulheres.


Durante anos, discursos misóginos deixaram de ocupar espaços marginais para ganhar protagonismo nas redes sociais. Embalados por uma estética de “autoconhecimento masculino” e “verdades duras sobre relacionamentos”, influenciadores ligados ao universo conhecido como “redpill” transformaram frustração em produto, e ressentimento em audiência.


Sem formação acadêmica, sem compromisso com evidência e, principalmente, sem qualquer tipo de responsabilização, esses autoproclamados especialistas em comportamento feminino ocuparam uma lacuna perigosa: a de um debate público fragilizado sobre relações de gênero, e encontraram terreno fértil em uma internet guiada por algoritmos que premiam o conflito.


Não é coincidência que esses conteúdos tenham crescido. Plataformas digitais lucram com engajamento, e o ódio engaja. A indignação viraliza, a polarização retém atenção, e nesse ciclo o discurso misógino deixou de ser apenas tolerado para ser impulsionado.


O resultado é concreto. Mulheres passaram a ser alvo constante de ataques coordenados, deslegitimação pública e violência simbólica cotidiana. Mais do que isso: consolidou-se uma narrativa que tenta naturalizar a inferiorização feminina como se fosse apenas “opinião” ou “ponto de vista”, mas, apesar do que esses "especialistas" afirmam, ódio não é opinião.


Ao equiparar a misoginia ao racismo, o Senado reconhece que o ataque sistemático a mulheres não é um desvio pontual, mas uma prática estruturada de discriminação. E mais: estabelece que esse tipo de conduta não pode mais ser tratado com a passividade que marcou os últimos anos.


É uma vitória dos movimentos que, há décadas, denunciam que a violência contra a mulher começa na linguagem, no discurso, na forma como a sociedade autoriza (ou não) determinados comportamentos. Mas é preciso cautela com o entusiasmo.


A lei, isoladamente, não desmonta a engrenagem que sustenta essa indústria de desinformação e ódio. Influenciadores continuarão produzindo conteúdo. Plataformas continuarão operando sob a lógica do engajamento. E uma parcela da sociedade seguirá consumindo e validando essas narrativas.


O enfrentamento real exige mais: regulação das plataformas, responsabilização efetiva e, sobretudo, reconstrução de um debate público baseado em informação de qualidade. O que está em jogo não é apenas punir quem odeia, é impedir que o ódio continue sendo um negócio lucrativo.

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