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Dois pesos, duas medidas: quem realmente custa caro ao Brasil?

  • Foto do escritor: Karina Pinto
    Karina Pinto
  • 26 de fev.
  • 3 min de leitura
Foto: Divulgação Agência Câmara
Foto: Divulgação Agência Câmara

O debate sobre o fim da escala 6x1 escancarou uma contradição antiga da política brasileira: a régua moral e econômica usada para medir direitos trabalhistas não é a mesma aplicada quando o assunto são interesses do mercado ou privilégios parlamentares.


Partidos da direita têm se posicionado contra a proposta de revisão da jornada 6x1 sob o argumento de que a mudança “quebraria empresas”, geraria desemprego e comprometeria a competitividade do país. O discurso é conhecido: qualquer ampliação de direitos trabalhistas seria uma ameaça à economia.


Mas a coerência termina aí.

Os mesmos grupos políticos que evocam responsabilidade fiscal para frear direitos sociais se recusaram a endurecer medidas contra as chamadas “Bets” — plataformas de apostas esportivas que se multiplicaram no país. Empresas que movimentam bilhões, geram poucos empregos diretos no Brasil e operam, em muitos casos, com sedes no exterior. O impacto social das apostas — endividamento, vício, desestruturação familiar — raramente entra no cálculo dos que dizem defender a saúde financeira das famílias brasileiras.


Se a preocupação é com a economia real e com quem produz, por que não há o mesmo rigor com um setor que drena recursos da população e pouco contribui para o desenvolvimento produtivo do país?


A contradição se repete quando o assunto são políticas sociais. O Bolsa Família é frequentemente atacado como símbolo de “assistencialismo” que “vicia” o cidadão e pesa nos cofres públicos. A narrativa sustenta que o Estado estaria premiando a inatividade.


No entanto, não se vê o mesmo empenho desses partidos em rever o volume bilionário das emendas parlamentares — especialmente as emendas de relator, popularizadas como “orçamento secreto”. Recursos públicos distribuídos com transparência questionável e, muitas vezes, vinculados a redutos eleitorais estratégicos.


Se o problema é o custo, por que o benefício direcionado à população vulnerável é tratado como desperdício, enquanto a destinação política de verbas públicas é defendida como prerrogativa legítima do mandato?


A discussão sobre a escala 6x1 deveria ser feita com base em dados, produtividade, saúde do trabalhador e impactos econômicos reais. Jornadas excessivas afetam a saúde física e mental, reduzem a produtividade no médio prazo e ampliam desigualdades. Defender o debate não significa ignorar as dificuldades das empresas, mas reconhecer que desenvolvimento econômico não pode ser construído exclusivamente sobre o desgaste permanente do trabalhador.


O que se observa, no entanto, é uma seletividade ideológica: direitos trabalhistas e políticas sociais são tratados como ameaças; subsídios, incentivos e privilégios políticos raramente entram na lista de cortes necessários.


E é aqui que o debate deixa de ser apenas econômico e se torna eleitoral.

Às vésperas de novas disputas nas urnas, o eleitor precisa se perguntar: quais candidatos estão, de fato, atentos às necessidades reais do país, e quais apenas reproduzem a linha pautada por um Congresso que acumulou a pecha de “inimigo do povo” ao ampliar seus próprios benefícios e concentrar cada vez mais recursos em emendas de destinação pouco transparente?


Quem defende responsabilidade fiscal está disposto a aplicá-la também aos próprios privilégios? Quem critica programas sociais apresenta alternativas viáveis para combater a pobreza? Quem diz proteger o empreendedorismo propõe regras claras e justas para todos os setores — inclusive os que lucram bilhões com apostas?



O voto é, no fim das contas, o instrumento mais poderoso de coerência política. Não basta observar o discurso. É preciso analisar como cada parlamentar votou, quais interesses priorizou e quais projetos realmente impactam a vida do trabalhador brasileiro.

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