Quando um país estrangeiro ataca o Brasil, de que lado devem ficar os políticos patriotas?

As novas ameaças tarifárias de Donald Trump contra produtos brasileiros deveriam provocar uma reflexão profunda na disputa partidária no Brasil. Em momentos como este, a pergunta fundamental não é se alguém é de direita ou de esquerda. A pergunta é: quem está defendendo os interesses do Brasil?
A justificativa apresentada pelo governo norte-americano para atacar o PIX e questionar práticas comerciais brasileiras se mostra infundada. O sistema de pagamentos criado pelo Banco Central já é referência internacional justamente por reduzir custos, ampliar a inclusão financeira e aumentar a concorrência.
Não é difícil compreender por que o PIX incomoda determinados interesses econômicos. Durante décadas, sistemas de pagamento estiveram concentrados nas mãos de grandes instituições financeiras e empresas privadas, a maior parte delas, norteamericanas. O PIX alterou essa lógica. Ao oferecer transferências instantâneas e gratuitas para milhões de brasileiros, reduziu a dependência de intermediários e criou um modelo que passou a ser observado por diversos países.
Em um mundo cada vez mais disputado pela corrida tecnológica, minerais estratégicos como terras raras, lítio e nióbio ganharam importância geopolítica. O Brasil possui algumas das maiores reservas desses recursos no planeta. Dependentes da China, os Estados Unidos buscam alternativas desesperadamente, e o alvo é o Brasil.
Apenas isso não seria tão escandaloso assim, afinal, relações internacionais envolvem táticas que minam lentamente (ou não), políticas internas ao redor do mundo. O problema surge quando interesses externos encontram aliados internos dispostos a transformar disputas nacionais em instrumentos de guerra política.
A aproximação entre a família Bolsonaro e o movimento liderado por Donald Trump é pública e conhecida. Não há nada de ilegal ou ilegítimo em manter relações políticas internacionais. O que merece debate é outra questão: até que ponto uma aliança ideológica pode se sobrepor aos interesses nacionais?
Quando um líder estrangeiro ameaça exportações brasileiras, ataca instrumentos financeiros nacionais ou pressiona o país em temas estratégicos, espera-se que representantes políticos brasileiros defendam o Brasil. Não o governo de ocasião. Não um partido específico. O país.
A história mostra que nações soberanas não prosperam pela submissão a potências estrangeiras, mas pela capacidade de negociar em condições de autonomia. Foi assim que o Brasil construiu sua tradição diplomática ao longo de décadas, mantendo relações com diferentes blocos de poder sem abrir mão de seus próprios interesses.
O debate, portanto, não é sobre ser pró-Estados Unidos ou antiamericanos. Os Estados Unidos continuarão sendo um parceiro econômico e político relevante para o Brasil. A questão é outra: quando surge um conflito entre os interesses de Washington e os interesses brasileiros, de que lado deve estar um político eleito pelos brasileiros?
Num momento em que o país enfrenta pressões comerciais, disputas geopolíticas e tentativas de influência externa, o patriotismo não pode ser apenas um slogan de campanha. Ele precisa se manifestar na defesa concreta da soberania nacional, da economia brasileira e das instituições do país, ou não?



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