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Normalização da violência e desumanização das mulheres incentivam comportamentos agressivos no Brasil

  • Foto do escritor: Karina Pinto
    Karina Pinto
  • há 1 dia
  • 5 min de leitura

Atualizado: há 1 hora




Há casos em que a diferença entre uma ocorrência policial e uma tragédia anunciada está em uma pergunta a mais, em uma suspeita que não é ignorada, em um policial que decide investigar um pouco além do que parece evidente.


O caso de uma jovem de 24 anos encontrada amordaçada e acorrentada em um cativeiro em Águas Lindas de Goiás, no Entorno do Distrito Federal, é um desses episódios que deveriam provocar mais do que indignação. Deveriam também nos fazer refletir sobre como autoridades, familiares e a própria sociedade identificam situações de violência contra mulheres antes que elas alcancem níveis extremos.


Segundo informações divulgadas pelo g1, a jovem havia desaparecido dias antes. O ex-marido, apontado pela polícia como suspeito, foi abordado na sexta-feira (21), após desobedecer a uma ordem de parada e tentar fugir em alta velocidade. Foi a partir dessa abordagem que a investigação tomou outro rumo.


Os policiais localizaram uma casa alugada pelo homem poucos dias antes. O imóvel estava trancado e tinha sinais de reforço na segurança externa. Em vez de simplesmente deixar o local, os agentes perceberam que havia algo estranho. Ao ouvirem barulhos dentro da residência, entraram e encontraram a mulher em um dos quartos, amordaçada e presa por cordas, algemas e correntes. Ela apresentava dificuldades para respirar.


É justamente nesse ponto que o caso merece ser observado por uma perspectiva que vai além do horror das imagens, e a atenção dos policiais foi determinante.


O homem poderia ter sido apenas conduzido pela infração identificada naquele momento. Mas a persistência da equipe levou à descoberta de uma segunda história, muito mais grave, que estava escondida atrás das paredes de uma casa aparentemente vazia.


Na imprensa e nas redes sociais o caso ganhou repercussão rapidamente. De um lado, brasileiros impressionados com a crueldade e aliviados ao ver a jovem bem e em segurança, do outro, teorias sobre como se construiu a personalidade de um homem capaz de cometer uma série de crimes após ouvir um não como resposta.


A psicanalista Amanda Souza chama atenção para a necessidade de evitar diagnósticos simplistas diante de comportamentos de violência extrema. “Reduzir um homem que sequestra, acorrenta e submete uma ex-companheira ao sofrimento à figura de um narcisista pode ser insuficiente para compreender a dimensão do comportamento”, lembra.


Na avaliação da profissional, situações dessa natureza precisam ser analisadas considerando diferentes hipóteses psicológicas e comportamentais. O ponto central, entretanto, não está em atribuir um diagnóstico ao suspeito, algo que exigiria avaliação clínica e não pode ser feito a partir de uma notícia. Está em compreender a lógica de dominação e desumanização da vítima que aparece em determinados episódios de violência.


Quando uma pessoa não aceita o fim de uma relação e passa a tratar a ex-companheira como propriedade, o término deixa de ser compreendido como uma decisão legítima do outro. A liberdade da mulher passa a ser encarada como uma ameaça ao poder daquele homem.


É aí que o “não” deixa de ser reconhecido como uma resposta possível. E isso é especialmente perigoso!


Prender, amordaçar, acorrentar e controlar os movimentos de uma mulher não são manifestações de amor, ciúme ou sofrimento amoroso. São atos de violência e dominação. No caso de Goiás, segundo o relato da vítima, o ex também teria utilizado substâncias e outros métodos de agressão durante o período em que ela permaneceu no cativeiro. A investigação ainda deve esclarecer todas as circunstâncias e responsabilidades.


A questão, portanto, não é chamar esse homem de “monstro”, “louco” ou “narcisista”. Rótulos podem até produzir uma explicação confortável, mas não necessariamente ajudam a prevenir o próximo caso.


A pergunta mais importante é outra: quais sinais estavam presentes antes que a violência chegasse a esse nível? Amanda Souza observa que parte dos homens ainda é educada sob uma concepção de masculinidade baseada na ideia de que o homem precisa mandar, prover, controlar e ter sempre a última palavra. Quando esse modelo encontra uma mulher independente, que decide terminar uma relação ou simplesmente estabelece limites, alguns indivíduos podem interpretar a perda de controle como uma humilhação.


Isso não significa que a violência seja inevitável ou que uma determinada criação produza automaticamente um agressor. Significa reconhecer que homens também precisam aprender a lidar com frustração, rejeição, limites e vulnerabilidade.


Quando isso não acontece, a frustração pode encontrar ambientes que oferecem respostas perigosas.


É nesse contexto que a psicanalista cita a influência de determinados discursos disseminados na internet, incluindo comunidades associadas ao chamado movimento redpill. O cuidado aqui é necessário: “não se pode afirmar que a participação em determinado ambiente virtual transforme alguém automaticamente em agressor. O problema está na normalização de discursos que apresentam mulheres como inferiores, defendem relações baseadas em submissão e estimulam uma visão de masculinidade associada ao domínio”, explica.


As redes sociais podem transformar inseguranças individuais em certezas coletivas. Podem oferecer ao homem que se sente rejeitado uma narrativa segundo a qual ele não precisa lidar com a própria dor, mas encontrar alguém para culpar.


E, quando a mulher passa a ser vista como responsável pela frustração masculina, abre-se espaço para uma lógica particularmente perigosa: se ela não obedece, precisa ser controlada; se vai embora, precisa ser impedida; se diz não, precisa ser convencida.


O resultado extremo dessa lógica é justamente o que o caso de Goiás expõe de maneira brutal: a tentativa de retirar da mulher até mesmo o direito elementar de decidir sobre a própria vida.


Por isso, falar de violência contra a mulher não pode significar apenas falar sobre o momento em que a agressão acontece. É preciso falar sobre controle excessivo, ameaças, perseguição, isolamento, invasão de privacidade, incapacidade de aceitar o término e comportamentos que transformam a relação afetiva em uma relação de posse.


E é preciso que esses sinais sejam levados a sério. No caso de Goiás, a atuação policial mostra o valor disso. O desaparecimento da jovem já havia sido comunicado pela família. Dias depois, uma abordagem aparentemente relacionada a outro fato levou os agentes a desconfiar da situação, localizar o imóvel e verificar o que havia dentro dele. A investigação insistiu onde poderia ter parado, e encontrou uma mulher que precisava ser salva.


É impossível saber o que teria acontecido se aqueles policiais não tivessem entrado naquela casa. Mas há algo que se pode afirmar: a decisão de olhar além do óbvio fez diferença.


Em tempos em que tantas histórias de violência começam com sinais aparentemente pequenos e terminam em tragédias irreversíveis, essa talvez seja a principal mensagem do caso.


Prevenir não é apenas agir quando a violência já aconteceu, é reconhecer sinais, é investigar, acreditar no relato de quem pede ajuda, de quem pede uma medida protetiva. É não tratar ameaças e comportamentos de controle como simples problemas de relacionamento.


E, para os homens, talvez exista uma mudança ainda mais profunda a ser feita: entender que perder uma relação não significa perder o próprio valor. Que ouvir “não” não é uma derrota. Que uma mulher que decide ir embora não está retirando de ninguém um direito que jamais existiu. Ninguém é propriedade de ninguém.

 
 
 

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