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Violência vicária: caso em Goiás acende alerta e revela crueldade contra mulheres e crianças

  • Foto do escritor: Karina Pinto
    Karina Pinto
  • 18 de fev.
  • 3 min de leitura
© Tânia Rêgo/Agência Brasil
© Tânia Rêgo/Agência Brasil

O assassinato de duas crianças pelo próprio pai, em Goiás, seguido de suicídio, não pode ser tratado apenas como uma tragédia individual ou um surto inexplicável. Casos como esse exigem uma leitura mais profunda — não para justificar o crime, mas para expor os mecanismos sociais, simbólicos e psicológicos que estão por trás de tamanha crueldade.


Após acompanhar o início das investigações, o velório das crianças em que a mãe foi impedida de participar por conta da enxurrada de ofensas e mensagens negativas nas redes sociais, ficou impossível não se interessar por esse caso e perceber o quanto o Brasil se tornou nos últimos anos um lugar inseguro e tóxico para as mulheres.


A tragédia familiar em que dias crianças foram vítimas da obsessão, ciúmes, desejo de posse e controle, e acima de tudo, da necessidade extrema de parecer sem ser, nos afoga em nossa própria realidade. O que aconteceu com essa família, e a sucessão de acontecimentos que vieram em seguida apenas confirmam o que as mulheres vêm enfrentando diariamente no país.


Relatos de pessoas próximas indicam que o autor teria traído a esposa e, nos dias que antecederam o crime, passou a alegar que também estaria sendo traído. Não há provas públicas que sustentem essa acusação. Ainda assim, a suspeita foi suficiente para alimentar uma narrativa de ressentimento, controle e ódio. Como se não bastasse a violência extrema do ato, a mãe das crianças passou a ser duramente atacada nas redes sociais, responsabilizada por uma tragédia da qual também é vítima.


Esse roteiro não é novo. Ele está presente, há mais de um século, em um dos romances mais debatidos da literatura brasileira: Dom Casmurro, de Machado de Assis.


No livro, Bentinho narra sua história a partir de um ciúme obsessivo que transforma desconfianças em certezas. Capitu nunca é flagrada em traição. Não há provas. Há apenas um narrador inseguro, ferido e incapaz de lidar com a própria fragilidade emocional. Ainda assim, por décadas — e até hoje — parte do debate público insiste em julgar Capitu como culpada.


A lógica é a mesma que se repete agora na vida real.


Quando um homem emocionalmente instável decide que foi traído, a suspeita passa a funcionar como sentença. A dúvida vira convicção. A convicção vira justificativa moral. E, em uma sociedade que ainda naturaliza a ideia de posse sobre a mulher e a família, a violência encontra terreno fértil para se manifestar — primeiro no discurso, depois nos atos.


Do ponto de vista criminológico, esse tipo de crime costuma estar associado a paranoia relacional, sentimento de perda de controle e necessidade de punição. A mulher deixa de ser vista como sujeito e passa a ocupar o papel de inimiga moral. Não importa o que ela diga ou prove. A narrativa já está pronta.


É nesse contexto que emerge a violência mais extrema: a violência vicária. Os filhos são assassinados não por quem são, mas pelo que representam. São usados como instrumento para ferir a mãe de forma irreversível. É a lógica do “se eu não posso controlar, vou destruir”.


Nada disso tem relação com amor, zelo ou sofrimento romântico. Trata-se de poder. Trata-se de controle. Trata-se da incapacidade de lidar com frustrações sem transformar o outro em culpado absoluto.


Assim como Bentinho condenou Capitu sem provas, parte da opinião pública agora tenta condenar uma mulher que perdeu os filhos da forma mais brutal possível. A diferença é que, fora da literatura, essa narrativa mata — e continua matando ao revitimizar quem sobrevive.


O crime em Goiás não é apenas um caso policial. É um alerta sobre os riscos de normalizar discursos paranoicos, de relativizar a responsabilidade do agressor e de insistir, mais uma vez, em colocar a mulher no banco dos réus.



Machado de Assis deixou a pergunta no ar há mais de cem anos. A realidade recente responde da pior forma possível: Quando a sociedade escolhe acreditar no delírio em vez dos fatos, o preço pode ser a vida de inocentes.

1 comentário


Renata Leite
Renata Leite
19 de fev.

Excelente!

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