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Off Campus e os homens que são fortes sem perder a humanidade

Foto do escritor: Karina Pinto
Karina Pinto
12 de ago.
4 min de leitura


Há algo quase subversivo em Off Campus, embora, à primeira vista, a série pareça apenas mais uma produção sobre jovens bonitos, sexo, festas, faculdade, hóquei e paixões complicadas.


Os personagens treinam, estudam, competem, bebem, transam, se apaixonam, fazem escolhas ruins e, algumas vezes, quebram a cara. Eles têm vida sexual, e elas também. Eles ficam com várias pessoas, e elas também. Eles mudam de ideia, terminam relacionamentos, sentem ciúme, se arrependem e seguem em frente.


Talvez seja justamente aí que esteja uma das coisas mais interessantes da série: em um universo no qual todo mundo parece sexualmente livre, o respeito não desaparece. Um “não” continua sendo não. Uma mulher pode ficar com os homens que quiser e continuar merecendo respeito.


Um homem pode ser rejeitado sem transformar a rejeição em humilhação pública. Uma relação pode terminar sem que a mulher se transforme em inimiga. E uma pessoa pode desejar outra intensamente sem acreditar que, por isso, adquiriu algum direito sobre ela. Parece básico, e deveria ser, mas não é!


Off Campus, adaptação da série de livros de Elle Kennedy, apresenta uma juventude masculina que não precisa escolher entre virilidade e humanidade. São jogadores de hóquei, competitivos, fisicamente fortes, sexualmente ativos e, em alguns momentos, absolutamente idiotas, como os jovens costumam ser. Mas eles também são capazes de ouvir, acolher, pedir desculpas, respeitar limites e reconhecer a dor de alguém. A série coloca amor, sexo, trauma, violência, ambição profissional e conflitos pessoais dentro do mesmo universo, e isso produz um contraste incômodo com o mundo real.


Porque, enquanto a ficção consegue imaginar homens que desejam mulheres sem precisar dominá-las, parte do discurso contemporâneo sobre masculinidade parece empenhada em convencer homens de que respeitar uma mulher é uma espécie de derrota.


Nas redes sociais, multiplicam-se gurus que prometem ensinar como ser “alfa”, como não demonstrar vulnerabilidade, como conquistar mulheres, como não ser “dominado” por elas e como recuperar um suposto poder masculino perdido. O chamado movimento red pill se alimenta justamente dessa ideia de que homens e mulheres deveriam ocupar posições diferentes e hierarquizadas nas relações.


É uma ideia curiosa e perigosa, para o século 21. Em vez de ensinar um homem a conversar, a orientação é vencer. Em vez de ensiná-los a lidar com rejeição, a regra é não aceitar ser rejeitado. Em vez de orientar os homens a reconhecer sentimentos, a orientação é esconder a todo custo para não parecer vulnerável. Em vez de ensinar os homens a construir relações, os cursos de masculinidade ensinam a conquistar mulheres.


E talvez o resultado dessa pedagogia seja justamente o contrário do que promete, porque um homem que precisa provar o tempo inteiro que é alfa, talvez esteja apenas apavorado com a possibilidade de não ser suficientemente homem. Existe uma diferença enorme entre masculinidade e performance de masculinidade.


A primeira pode comportar força e delicadeza, desejo e responsabilidade, coragem e medo, independência e afeto. A segunda exige uma espécie de teatro permanente: não demonstrar fragilidade, não admitir insegurança, não aceitar rejeição, não parecer interessado demais, não sofrer por amor, não pedir ajuda, não chorar, não perder.


Em Off Campus o que se oferece, e de forma simples, é: se você gosta de alguém, diga. Se ela não quiser, aceite. Se ela quiser, respeite. Se o relacionamento terminar, sofra e siga adiante. Se você errar, peça desculpas.


Se alguém estiver sofrendo, não transforme a dor dela em oportunidade para demonstrar superioridade. Não parece revolucionário, mas, diante da quantidade de violência produzida justamente pela incapacidade de aceitar limites, talvez seja justamente isso, uma revolução.


A série também não transforma os conflitos em conto de fadas. Há histórias atravessadas por violência sexual, violência doméstica, traumas e escolhas difíceis. Há mulheres tentando reconstruir a própria vida depois de experiências que não escolheram. Há personagens diante do conflito entre amor e projeto de vida. Há quem queira construir uma família e quem queira uma carreira. Há quem descubra que amar alguém não significa necessariamente querer a mesma vida que essa pessoa.


Esse talvez seja outro ponto importante: respeitar alguém não significa necessariamente concordar com ela. O namorado que deseja casamento e uma vida tranquila não está errado. A mulher que deseja uma carreira artística e não quer abrir mão dos próprios sonhos também não está errada.


O problema começa quando uma pessoa acredita que o amor lhe dá o direito de determinar o destino da outra. É nesse ponto que a discussão deixa de ser sobre romance e passa a ser sobre poder.


E talvez seja por isso que uma série aparentemente escapista consiga provocar uma pergunta tão incômoda: por que precisamos de tanta discussão sobre “como ser homem” se uma das respostas mais importantes continua sendo tão simples?


Seja humano, haja com humanidade. É exatamente isso que precisamos. Homens que podem transar sem transformar mulheres em objetos. Que gostam de sexo sem acreditar que isso é uma moeda de poder. Que podem ser fortes sem humilhar. Que competem sem precisar diminuir alguém.


Homes que podem ser rejeitados sem transformar a mulher que disse “não” em vilã. Que podem amar profundamente sem considerar o amor uma fraqueza. Que choraram, pedem desculpas, têm medo.


É curioso que uma série sobre universitários, jogadores de hóquei e romances tenha conseguido chegar a uma conclusão que tantos especialistas autoproclamados em masculinidade parecem incapazes de alcançar.


Talvez ser homem não seja dominar, não seja ser alfa. Talvez não seja ter a última palavra, não seja colecionar mulheres para provar alguma coisa a outros homens.


Talvez a masculinidade não seja uma disputa. Talvez seja apenas a capacidade de existir no mundo entendendo que as outras pessoas também existem, e que mulheres não são personagens secundárias na história masculina, são protagonistas das próprias histórias.


Na ficção, isso parece simples. Na vida real, continuamos aprendendo da maneira mais dolorosa possível que não é. A série segue, a vida também. Enquanto na tela os jovens continuam dando aula sobre humanidade em sua essência, com erros, tropeços , segundas chances, despedidas e romances, na vida real, as mulheres estão cada vez mais assustadas. Enquanto isso, os cursos de masculinidade explodem com técnicas miraculosas para consertar tudo aquilo que eles mesmos contribuem para destruir.

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