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Neymar, o árbitro e a misoginia

  • Foto do escritor: Karina Pinto
    Karina Pinto
  • 4 de abr.
  • 2 min de leitura

Aos 32 anos, Neymar segue sendo chamado de “menino”. O apelido, que um dia soou como marca de genialidade precoce, hoje parece revelar algo mais incômodo: a dificuldade, ou a intenção de não amadurecer dentro e fora de campo.


A mais recente polêmica, envolvendo o uso de uma expressão de cunho misógino para criticar a arbitragem, não é um episódio isolado. Ela se soma a uma longa lista de comportamentos questionáveis que, via de regra, terminam do mesmo jeito: com desgaste público, alguma indignação passageira e, na prática, poucas ou nenhuma consequência concreta.


É aí que o debate deixa de ser sobre uma fala infeliz e passa a ser sobre um padrão.


Enquanto um zagueiro, em caso semelhante, recebe punição severa, com suspensão e multa, Neymar atravessa mais uma crise apoiado na blindagem que sua própria “grandeza” esportiva ajudou a construir. Não se trata apenas de talento. Trata-se de capital simbólico, financeiro e midiático suficiente para, repetidas vezes, amortecer o impacto de suas atitudes.


Há uma dificuldade evidente em tratar ídolos como cidadãos plenamente responsáveis por seus atos. No caso de Neymar, isso se traduz em um fenômeno recorrente: a infantilização. O “menino Ney” erra, exagera, provoca, ofende e, no imaginário coletivo, tudo acaba relativizado como traço de personalidade, temperamento forte ou “jeito irreverente”.


Mas até quando a mídia, a justiça desportiva e os torcedores irão aceitar isso?


A ideia de um “complexo de Peter Pan”, a recusa em crescer e assumir responsabilidades, não surge por acaso. Ela encontra eco em um ambiente que tolera, quando não incentiva, esse comportamento. Afinal, a quem interessa cobrar maturidade de quem rende holofotes e milhões em publicidade?


A resposta, evidentemente, deveria ser simples: interessa ao próprio esporte.


Ao normalizar discursos problemáticos, como o uso de expressões que associam o feminino à instabilidade ou inferioridade, o futebol não apenas falha em acompanhar transformações sociais básicas, ele também reforça estereótipos que já deveriam ter sido superados. E quando a punição não vem, ou vem de forma desigual, a mensagem é ainda mais clara: há, sim, diferentes pesos e medidas.


Neymar não é o primeiro, e certamente não será o último, grande jogador a testar os limites da própria imagem. A diferença é que, no seu caso, esses limites parecem cada vez mais elásticos.


O risco é evidente. Não apenas para sua reputação, é isso às vésperas de uma Copa do Mundo, mas para a credibilidade de um sistema que insiste em tratar exceções como regra.


No fim, a pergunta que permanece não é apenas sobre Neymar, mas sobre o futebol brasileiro: até que ponto o talento justifica a indulgência? E mais, quem, afinal, está disposto a dizer que o “menino” já passou da hora de crescer?

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