Ataques a Mbappé expõem necessidade de vigilância e constância na luta contra o racismo
- Karina Pinto
- 9 de jul.
- 2 min de leitura

A Copa do Mundo deveria ser a maior celebração da diversidade do planeta. Em um único torneio, povos, idiomas, culturas e histórias se encontram sob uma mesma paixão. Em 2026, porém, o Mundial tem revelado outro lado da humanidade: o preconceito que persiste entre nós.
O caso mais emblemático ocorreu após a classificação da França sobre o Paraguai. Kylian Mbappé, um dos maiores jogadores da atualidade, foi alvo de uma sequência de ataques racistas publicados por uma senadora paraguaia. Não se tratou de uma ofensa isolada de um torcedor escondido atrás de um perfil anônimo, mas de declarações feitas por uma representante eleita, utilizando estereótipos raciais para atacar um atleta por sua origem e identidade.
A repercussão foi imediata. A Federação Francesa apresentou denúncia, autoridades francesas abriram investigação e até o governo paraguaio tratou de se distanciar das declarações.
O episódio, contudo, não pode ser analisado como um fato isolado. Ao longo desta Copa, as denúncias de racismo, xenofobia e discursos de ódio dentro e fora dos estádios, se multiplicaram. Houve registros envolvendo torcedores argentinos contra atletas egípcios, reclamações formais de integrantes da delegação do Egito durante partidas e um crescimento explosivo das ofensas nas redes sociais.
Segundo dados divulgados durante o torneio, o número de publicações abusivas aumentou de forma inédita, com crescimento exponencial em relação às edições anteriores e milhares de mensagens contendo conteúdo racista inundaram as redes sociais. Organizações que combatem a discriminação alertam que o fenômeno é preocupante.
O preconceito se fortalece quando deixa de causar espanto. Quando um caso substitui o outro na velocidade das redes sociais, cria-se a falsa impressão de que insultos racistas, ataques xenófobos e manifestações de ódio são apenas mais um capítulo da rivalidade esportiva.
Racismo não é folclore de arquibancada. Xenofobia não faz parte do espetáculo. Discriminação nunca pode ser tratada como consequência inevitável da paixão pelo futebol.
A FIFA construiu, nos últimos anos, uma imagem de tolerância zero ao preconceito. Protocolos foram criados, campanhas foram lançadas e árbitros receberam orientações para interromper partidas diante de manifestações discriminatórias. O discurso institucional existe. O desafio é fazer com que ele seja percebido também na prática.
Quando jogadores, dirigentes e federações afirmam não se sentir plenamente ouvidos, quando reclamações demoram a receber esclarecimentos públicos e quando sucessivos episódios se acumulam durante o maior evento esportivo do planeta, abre-se espaço para uma percepção perigosa: a de que combater o preconceito é prioridade apenas quando cabe uma campanha publicitária.
O futebol possui um alcance que poucos fenômenos culturais conseguem alcançar. Bilhões de pessoas assistem aos jogos, milhões de crianças escolhem seus ídolos e reproduzem seus comportamentos. Se o Mundial normaliza o preconceito ou transmite a sensação de que ofensas racistas podem ser relativizadas, a mensagem ultrapassa os 90 minutos de uma partida.
Mbappé continuará sendo um dos maiores jogadores do mundo. Sua carreira dificilmente será diminuída pelos insultos de uma senadora ou de torcedores intolerantes. O verdadeiro risco está em outro lugar: na banalização. Quando o preconceito deixa de indignar, ele começa a vencer.



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