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A Copa da desconfiança: quando a FIFA perde o jogo mais importante

  • Foto do escritor: Karina Pinto
    Karina Pinto
  • 5 de jul.
  • 3 min de leitura

A Copa do Mundo de 2026 já entrou para a história com o novo formato com 48 seleções, e pela realização simultânea em três países. Mas, se as coisas seguirem como estão, essa edição será lembrada como a Copa em que a confiança do torcedor começou a desaparecer antes mesmo do apito final.


Toda Copa produz polêmicas. Arbitragem contestada faz parte do futebol. O problema surge quando as decisões deixam de parecer episódios isolados e passam a formar um padrão que beneficia justamente os personagens mais valiosos do espetáculo.


Primeiro vieram os questionamentos envolvendo lances capitais de arbitragem. A entrada de Lionel Messi sobre um adversário da Argélia, considerada por diversos analistas compatível com cartão vermelho, terminou sem expulsão nem revisão que produzisse punição equivalente à aplicada em casos semelhantes. Dias depois, Folarin Balogun, dos Estados Unidos, foi expulso por um lance que comentaristas de arbitragem classificaram como, no máximo, passível de cartão amarelo. A comparação entre os dois episódios alimentou críticas sobre falta de uniformidade nos critérios.


Quando parecia que a discussão terminaria na inconsistência da arbitragem, surgiu um fato ainda mais polêmico: a FIFA utilizou um dispositivo pouco conhecido do seu Código Disciplinar para suspender a punição automática de Balogun, permitindo que o principal atacante americano estivesse disponível para enfrentar a Bélgica.


O mecanismo existe, mas sua aplicação é extremamente rara e veio acompanhada de pouca explicação pública. A entidade tampouco esclareceu por que o caso mereceu tratamento excepcional justamente envolvendo uma das seleções do país-sede.


Os Estados Unidos não são apenas participantes desta Copa, são anfitriões. São o maior mercado consumidor do torneio, e responsáveis por bilhões de dólares em direitos comerciais, publicidade e audiência.


Nessa realidade, qualquer decisão extraordinária favorável à seleção americana inevitavelmente produz uma pergunta que a FIFA deveria responder antes que seja feita pelos torcedores: o mesmo aconteceria com qualquer outra seleção?


Não existe, até agora, prova de favorecimento deliberado. Mas também não existe transparência suficiente para afastar essa hipótese, e em instituições que administram competições esportivas, a percepção de imparcialidade vale tanto quanto a imparcialidade em si.


Outro episódio reforçou esse ambiente de desconfiança: a trajetória da seleção iraniana.


O Irã chegou à Copa cercado por tensões diplomáticas inéditas envolvendo justamente um dos países anfitriões. Antes mesmo do torneio, havia incertezas sobre vistos, deslocamentos e participação da delegação em razão da deterioração das relações entre Teerã e Washington. A FIFA insistiu que o futebol permaneceria acima da política.


No entanto, a promessa de neutralidade parece cada vez mais difícil de sustentar quando política, interesses econômicos e decisões esportivas passam a dividir o mesmo campo.


A Copa do Mundo sempre foi muito mais do que futebol. Ela movimenta governos, patrocinadores, emissoras de televisão, plataformas digitais e mercados financeiros.


Quanto maior esse ecossistema econômico, maior também é a responsabilidade institucional da FIFA em demonstrar que nenhuma decisão é contaminada por interesses externos.


Até aqui, a FIFA não conseguiu fazer isso. Não porque existam provas de manipulação dos resultados. Mas porque os episódios que exigem explicações estão se acumulando e o público recebe apenas comunicados burocráticos.


Quando um craque recebe tratamento aparentemente diferente de outros jogadores; quando uma punição considerada automática deixa de ser aplicada ao principal atacante do país anfitrião; quando decisões excepcionais surgem sem fundamentação pública convincente, a narrativa esportiva começa a dividir espaço com uma narrativa muito mais perigosa: a de que existem protagonistas mais importantes que as regras.


Talvez todas essas decisões tenham justificativas técnicas legítimas. Talvez cada caso possa ser explicado isoladamente. O problema é que o torcedor já não está julgando casos isolados, ele observa o conjunto.


A maior competição do futebol mundial nunca precisou tanto convencer o mundo de que seus critérios continuam valendo igualmente para todos. Porque, numa Copa do Mundo, perder um jogo faz parte. Agora, perder a confiança do público é um placar muito mais difícil de virar.

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