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Érika Hilton e a comissão das mulheres: a polêmica que escancarou uma realidade machista

  • Foto do escritor: Karina Pinto
    Karina Pinto
  • 16 de mar.
  • 2 min de leitura
Imagem: Exposição "Mulheres no Poder" na Câmara dos Deputados
Imagem: Exposição "Mulheres no Poder" na Câmara dos Deputados

A eleição de Érika Hilton para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados expôs muito mais do que um embate pontual entre parlamentares. Ela escancarou uma contradição histórica: quem, de fato, tem ocupado e controlado os espaços institucionais que deveriam representar as mulheres no Brasil?


Criada para formular, debater e fiscalizar políticas públicas voltadas às mulheres, a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher deveria ser um dos principais instrumentos de enfrentamento às desigualdades de gênero no país. No entanto, ao longo dos anos, sua atuação tem sido frequentemente atravessada por uma realidade incômoda: a influência direta ou indireta de estruturas políticas ainda majoritariamente masculinas.


Não se trata apenas da composição formal da comissão, mas do funcionamento do sistema político como um todo. Durante décadas, foram homens nos partidos, nas lideranças e nos bastidores do Congresso, que decidiram quais pautas seriam priorizadas, quais projetos avançariam e, sobretudo, o que seria considerado “tema de mulher”. Essa lógica ajudou a moldar políticas muitas vezes distantes da realidade vivida pela maioria das brasileiras.


A polêmica em torno da posse de Érika Hilton revela justamente essa disputa de poder. Parte das críticas direcionadas à deputada se baseia no argumento de que apenas mulheres cisgênero poderiam ocupar o cargo. No entanto, esse discurso ignora um ponto central: historicamente, nem mesmo mulheres cis tiveram acesso pleno a esses espaços. A restrição da presença feminina na política sempre foi uma constante, independentemente de identidade de gênero.


O problema, portanto, é mais profundo. Ele está na estrutura que limita a participação das mulheres desde a base. Partidos políticos ainda enfrentam dificuldades em garantir candidaturas femininas competitivas, muitas vezes tratando cotas como mera formalidade, ou burlando as mesmas apenas para conseguir recursos que seriam destinados às candidatas. Conselhos, comissões e instâncias de decisão seguem reproduzindo uma lógica de exclusão, onde mulheres são minoria ou figuram sem poder real de decisão.


Enquanto isso, homens continuam ocupando posições estratégicas e definindo prioridades, inclusive em temas que dizem respeito diretamente à vida das mulheres, como saúde reprodutiva, violência de gênero e autonomia econômica. É uma dinâmica que perpetua um desequilíbrio histórico: mulheres são objeto das políticas, mas nem sempre protagonistas de sua construção.


Nesse contexto, a eleição de Érika Hilton, independentemente das divergências ideológicas, rompe uma barreira importante. Não apenas por ser uma mulher trans à frente da comissão, mas por impactar e gerar tensão em um modelo tradicional de poder que sempre foi pouco tolerante à diversidade. 


No fundo, a discussão vai além de quem deve ou não presidir a comissão. Trata-se de questionar por que, ainda hoje, espaços destinados às mulheres continuam sendo, em grande medida, ocupados por homens. E mais: por que a presença feminina, em toda a sua diversidade, ainda é vista como exceção, e não como regra, na política brasileira?


A polêmica atual, e por que não dizer, a revolta em torno do caso, é reflexo de um sistema que ainda resiste em abrir mão do controle sobre quem fala, quem decide e quem representa as mulheres no país. 

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